quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Todas as cartas de amor são  ridículas, poeta?




"Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

(Álvaro de Campos,
in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa)


E eu, o que penso?
Pode ser
que as cartas de amor sejam ridículas
E ele afirma que já as escreveu
O que o caracteriza ter sido ridículo no passado.
Deve ter o poeta suas razões.
Desse tema , me abstenho
Eu nunca escrevi cartas de amor.
Nem adolescente
muito mesmo agora.
Desperdício,
Escrevi,
Escrevemos mil bilhetes de amor.
Recados deixados sobre a mesa
E sempre terminando:
Eu te amo.
És minha vida.
Tem mamadeira na geladeira.
Espero-te na tua volta
Depois do plantão da meia - note
Para saber do teu dia.
Não aguentei.
Exausta.
Nossos filhos me deram canseira.
Estarei dormindo.
Dá-me um beijo!
Senti saudades de ti.
E recebia também estes bilhetes
Rápidos
Mas cheios de amor!

Éramos ridículos, nunca!
Uníamos o prático de um jovem casal com dois filhos
Entremeados de declarações de carinho.

Não foram palavras nem sentimentos esdrúxulos.
Nem ficaram perdidos na memória.

Até hoje
Trocamos recados práticos:
 - Compra alface, brócolis,
e "meu"vinagre orgânico de maçã
E não esqueça do teu remédio!
Eu te amo!
Mas se não comprares algo gostoso
Nem precisas voltar, ouviste?

E encontro na mesa de cabeceira
-  Amor
Não é melhor comprar mais verduras?
Se eu encontrar algo diferente
Vou ligar, te acordar,  dorminhoca!
O sol já raiou há muito tempo!
Beijos, te amo!

Ora, poeta,
Ridículo
É escrever cartas longas
Cheias de juras de amor
A realidade está aí.
O amor é o mesmo ou maior!

Ridículo e esdrúxulo é não declarar
por toda a nossa vida
o quanto amamos alguém!

Mas não esqueça da minha bananada diet
Senão... é divórcio!

Maria Izabel Viégas

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A culpa da minha insônia



Sofro de uma doença gravíssima.
Trocar a noite pelo dia.
Dormir de dia
Prazer gostoso.
Dormir de noite
Heresia.
Não é insônia.
Isso tem nome:
Rebeldia?
Ou seriam memórias
De uma pequenina guria?
Que anjo me mandou
nascer de madrugada,
Pontualmente,
Uma hora e vinte,
Numa noite de lua cheia?

Minha mãe e meu pai
acordados.
Até um médico na ativa!
Percebi que o sol
Não se espalhava
Nos tais raios de luz.
Era um sol refrescante
Cheio de charme
Feminino
Descobri que o sol era a lua!

Ora, convenhamos
Qualquer recém nascida
Se confundiria.
No retorno
A essa vida
Aqui nesse planeta azulado,
Concluí que a noite
Era o 'meu' dia!

Assim explicado o fato
Narrado
E por todos
confirmado:
Cresci
Uma mulher de fases
Só acordo nas noites
De lua cheia.

Apesar do meu
Apaixonamento
Por todas
As luas novas
Fase em que
Nova semente
É fecundada
No conluio de amor
Entre o sol e a lua.
Deitam -se, às escuras,
Loucos de amor,
Saudosos e presentes,
Mas invisíveis aos olhos
Dos curiosos e descrentes.

Maria Izabel Viégas



O Renasço Ocaso começou aqui: Quer ler? Vou gostar!

Sou por acaso o ocaso

Se sou ocaso Serei o fim Do sonho de estar  em vida? Ou serei Um sonho de transformar-me No sono daquilo que Se agiganta E me...