terça-feira, 29 de agosto de 2017

A certeza de ascender ao cume da minha montanha


"Se não fosse a certeza
Da imensa paz de descortinar,
Lá de cima, a planície,
Eu me sentaria agora à sombra
Daquele eucalipto,
E ficaria com os pássaros,
Com a tepidez da tarde,
Com o cheiro bom de mato
e cochilando... desistiria de caminhar."

(Prof. Hermógenes)

E me entregaria àquele cansaço de andar além
Ou desistir pois já tive o que mereci
Ou medo de sofrer mais
Ou o receio de, indo além,
Seguir num caminho desconhecido
Saindo da área de conforto
Que criei à minha volta.
Teria temor
pois já ultrapassei
de meio século
nestas paragens.
Seria mais confortável
Colher frutos das árvores que plantei.
Deitando-me à sombra
Cochilaria.
Sonhando que melhor ficar quieta
Com a clara visão do limitado
E lindo espaço que me cerca
Ou temer mais dores
e conflituosas travas
que já suporto
Ou superei.

Mas como assim?
Parar o tempo?
Viver do passado
Parando de sonhar?

E um dia acordar
E ver que simplesmente adormeci
Num berço tecido entre as flores.
Mas com limitada visão do ponto que me esqueci.
E ir desaparecendo, ficando ali
Virando relva, folhagem, adubo.
Voltar à terra
Sem ter visto o céu que me espera?

Não.
Tenho a certeza de que se seguir
Subir lá no cume
No topo das montanhas
Talvez a visão de minha história
Amplie, se descortine.
E ali entenderei
O porquê desta vida
E, talvez, quem sabe,
Minha visão de longo alcance
Encontrará o sentido desta vida
E de todas as vidas
Que me trouxeram a esta.

Com sapiência,
Posso atingir o ponto
Em que serei corpo translúcido
Estarei pronta para seguir
Tornar-me nuvem
E simplesmente,
Docemente,
Alegremente
Voar,
Partir!

Há uma montanha esperando por mim.
E nela tudo se descortina
Até a vida se renova em nova vida
Lá do alto serei o etéreo
Eterna.

Maria Izabel Viégas

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Chove





Chove


"Mas isso que importa! se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
Uma melodia do silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?
Chove...
Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama."

 - José Gomes Ferreira -


Quando criança
a chuva me impregnava
de alegria.
Ela me arrastava,
ela um rio
eu sempre um barquinho
velas içadas seguindo
as imensas correntezas
que no meu imaginário
se formavam ali
no quintal da minha casa.
Criança, puro instinto
Criança, semente a eclodir
eclodia em prazer.
Renascia a cada temporal.

O tempo passa
a criança já perdeu o seu barquinho
ou escondeu-o num baú
do nem sei onde.
Tenho muitas
outras festanças
guardadas no baú de lembranças.
Tão escondido
que virou tesouro,
perdido
lá no bem distante.
Perdi a chave
Perdi, que pena!
Creio que ficaram nos meus olhos de criança.

Hoje, entretanto, a chuva não é a mesma
Ela não leva mais barquinhos
E sim arrasta casas, prédios, cidades
Arrasta o mundo
O mundo a fez ficar assim.
Pobre chuva.
Tornou-se ácida.

Sinto que os olhos da criança ainda moram comigo.
Há no meu peito um coração que clama:
Volta criança,
fala comigo
Mas escuta,
não só fala!

Sinto que o segredo,
a chave mestre
está no bater do meu coração.

Na próxima chuva
decodifico o código
e volto a brincar na chuva
a não temer
a confiar de novo
no poder criador
e purificador da chuva.

Posso até virar pétalas de flores.
Virar jardim.
E tornar-me 'una' com as águas do céu.
Quem sabe?


Maria Izabel Viégas



O Renasço Ocaso começou aqui: Quer ler? Vou gostar!

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Se sou ocaso Serei o fim Do sonho de estar  em vida? Ou serei Um sonho de transformar-me No sono daquilo que Se agiganta E me...